A música é um tema universal que possui muitos desdobramentos. Portanto, é fundamental ressaltar a cautela com a qual o tema proposto precisa ser abordado, tendo em vista a grande relevância e profundidade do mesmo, a fim de compartilharmos e crescermos em entendimento de tão bela dádiva a nós concedida.
Conforme Tiago nos lembra, “...toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” (Tg 1.17). Dessa forma, é possível entender que somente o Pai das luzes nos poderá iluminar, conforme explanou o rei Salomão: “se como a prata a buscares e como a tesouros escondidos a procurares, então entenderás o temor do SENHOR, e acharás o conhecimento de Deus, porque o Senhor dá a sabedoria” (Pv 2.6a).
Assim, a primeira referência bíblica a um músico se dá em Gn 4.21, quando o autor cita o nome de Jubal, ao afirmar que “este foi o pai de todos os que tocam harpa e órgão”, e “Tubalcaim, mestre de toda a obra de cobre e ferro” em Gn 4.22. A respeito deste último, entende-se ter sido também um construtor de instrumentos. No entanto, muito antes da criação do homem, a música em sua forma perfeita já existia, com o propósito de louvar e adorar ao Eterno por sua infinita grandeza, o qual também é a finalidade de todas as coisas criadas, como afirma o apóstolo Marcos ao observar, impressionado: “mas quem é Este, que até o vento e o mar Lhe obedecem?” (Mc 4.41b); ou então o cronista, quando convida o povo: “Tributai ao Senhor a glória de Seu nome; trazei presentes, e vinde perante Ele; adorai ao Senhor na beleza da Sua santidade” (1 Cr 16.29).
Portanto, como adorador por natureza, é fundamental estar esclarecido sobre o que é louvor e como louvar. O verbo louvar deriva do latim laudare e denota os seguintes sinônimos: elogiar, exaltar, calcular o valor de; sendo que este último exprime consciência, pois não há calculos sem lógica ou razão. Então, quando louvar/adorar, não se deve usar repetições vazias e sem sentido, mas saber calcular o valor de cada palavra e dirigi-la a Deus em humildade, sendo esta também o fruto de um raciocínio lógico, que revela a frágil condição humana. A esse respeito, o apóstolo Paulo já admoesta, em Rm 12.1: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional”. O próprio Jesus afirma, em Jo 4.23, que “a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim O adorem.” Tais declarações são verdadeiros convites ao culto racional, pois este demonstra que a consciência e a sinceridade no ato de adoração são fundamentais, apreciadas, e procurados são por Deus os que as guardam.
Como supracitado, a música já havia sido concebida com seus propósitos definidos e dado o momento de sua criação, um versículo impressiona, que se encontra em Ez 28.13b: “...em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados”. A quem isso se refere? Prosseguindo, é possível ler mais, no versículo 12: “Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura”; e ainda, no versículo 14: “Tu eras o querubim, ungido para cobrir, e te estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras afogueadas andavas”; e finalmente, no versículo 15: “Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti”.
Este trecho de Ezequiel revela um ser que era um ícone da perfeição, sendo o maior após a divina Trindade e quis ser adorado e reinar como supremo, conforme Ez 28.2. Uma de sua funções – ou a mais importante delas – era a música. Ele foi, portanto, o primeiro maestro, cujo nome, inicialmente, significava detentor de luz – expressão originada do latimLucifer, “a estrela da manhã” pelo dicionário Aurélio. Mas Isaías já o descrevia usando esses termos ao lamentar: “Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste lançado por terra, tu que prostravas as nações!” (Is 14.12)
A partir de então, é possível deduzir que temos um inimigo que detém um notável conhecimento musical, o qual ele conseqüentemente usou, usa e usará para desfocar, deturpar e até mesmo profanar o louvor a Deus. Um fato crítico e de grande responsabilidade é que as igrejas não são por si só imunes aos planos de nosso inimigo, cabendo a nós analisarmos o que está sendo feito na parte musical e compararmos com os parâmetros bíblicos de louvor.
Deve ser considerada a sinceridade e retidão espiritual na música, a exemplo dos levitas, cujo papel sempre foi de suma importância na história do povo escolhido de Deus, até mesmo nas guerras. Porém, a passagem registrada em 1 Crônicas 15.16-22 deixa claro que a música nas igrejas requer ordem e, nesse sentido, estudo. Os versículos 20, 21 e 22 mostram a divisão de vozes por extensão, ao citar soprano e baixo – o que torna a passagem uma possível precursora da polifonia, além de referir-se a Quenanias como responsável sobre os demais por ser “entendido”.
Tendo por base essa visão, devemos então considerar que o aprendizado musical também é um processo contínuo. Há muito que descobrir, e não é concebível que se tenha receio ou vergonha de crescer e aprender. Muitas contribuições como, principalmente da música erudita – do latim, eruditu, que significa conhecimento, saber, sabedoria – revelam que a música possui certas regras e elas podem ser simples, mas farão o louvor ser racional e agradável a Deus.
Que cada frequência emitida por nossas vozes ou instrumentos possa ser gerada em sinceridade, polida pelo estudo e brilhante de gratidão ao Criador e Salvador de nossas almas, não importando se for por muitos visto ou ouvido, mas por Deus certamente será. Afinal, o sábio rei Salomão já nos conforta ao indagar: “Porventura aquele que pesa os corações não o percebe? E aquele que guarda a tua vida não o sabe? E não retribuirá a cada um conforme a sua obra?” Pv 24.12.
Assim, ergue-se um cântico e um convite ao louvor e adoração sinceros, conforme Paulo lembrou aos Filipenses, capítulo 4, versículo 4: “Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai- vos” pois Ele é digno e é a fonte de nossa alegria. Aleluia!
Aut. Israel Neves


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